A flor que nasce do fogo - um tributo às brigadas de incêndio
Na coluna Na Garupa com o Tunico, crônicas sobre estradas, histórias e destinos mineiros. Uma visão pela alma e pelo coração do Tunico, sobre as experiências que se pode sentir sobre duas ou quatro rodas
Julho chegou com seu vento seco, soprando poeira e silêncio sobre as encostas da Serra do Rola-Moça.
O mato, já sem verde, tinge o horizonte de tons de palha e ferrugem.
O céu está limpo, muito azul, e o ar, parado como se prendesse a respiração. Mas de repente - como um segredo contado entre pedras - algo acontece. É a canela-de-ema que floresce.
Quem olha de longe talvez nem note. Mas ali, rente ao chão, brota uma flor de lilás profundo, quase roxo, com um miolo amarelo que parece sol. Ela nasce da rocha, do pó, do calor.
Não escolhe terra fofa, sombra ou frescor. Prefere o chão áspero dos campos rupestres, as pedras esquentadas pelo sol, o lugar onde o fogo passou.
Sim, essa planta é do fogo. Não teme incêndio - ela o atravessa. Quando tudo parece ter se rendido à cinza, é ali que ela ressurge.
Chama-se Vellozia squamata, mas a gente aqui em Casa Branca aprendeu a chamar de canela-de-ema mesmo.
Flor exótica, rara e resistente, só cresce por essas bandas da Cadeia do Espinhaço, como se o Brasil a tivesse inventado só pra isso: lembrar que a beleza pode vir da adversidade.
E hoje a serra está em festa. Quem passa pela rodovia entre Casa Branca e o mirante vê os dois lados do asfalto cobertos por esse espetáculo inesperado.
É como se a montanha decidisse se enfeitar - sem data, sem cerimônia, sem pedido. Não é uma flor de jardim, nem de floricultura. É flor de quem insiste. De quem sobrevive.
De quem guarda força onde ninguém mais vê. A gente mora aqui há 37 anos. Já vimos a serra arder em chamas.
2015 foi cruel. 2017, revoltante. 2022 também queimou. Mas a serra responde como pode. E quando pode, ela floresce.
Hoje, a beleza da serra não brota só das flores - brota também do coração das brigadas voluntárias. São mãos firmes e pés cansados da Brigada Carcará, da Brigada Guará e da Brigada 1, que se erguem em silêncio quando os alarmes tocam.
Sem remuneração, sem holofotes - apenas a urgência de salvar o verde e proteger a vida. São elas que correm pela encosta, pousam sopradores, abrem aceiros, rescaldam o último foco... e permitem que a canela‑de‑ema renasça da cinza.
Essa flor de fogo, que conhece a perda e brota de novo, é reflexo da coragem dessas pessoas. Sem elas, talvez hoje não houvesse flor - só vestígios do que se foi. A canela-de-ema nos ensina.
A flor que nasce do fogo carrega no caule a memória da resistência. E nos lembra que nem tudo que é bonito é delicado. Às vezes, a beleza vem de quem sabe esperar.
De quem resiste calado. De quem brota quando ninguém mais acredita. Por isso, se puder, pare o carro.
Desça. Caminhe um pouco. Abaixe-se. Olhe de perto. E veja a flor. A flor que não devia estar ali, mas está.
E talvez por isso mesmo - porque insiste - é que ela emociona tanto.
Tributo às Brigadas Voluntárias da Serra
Brigada Carcará
Fundada em 2002, reúne cerca de 25 a 30 voluntários - todos capacitados e engajados na defesa do Parque Estadual da Serra do Rola-Moça e de outras unidades de conservação. Eles atuam no combate a incêndios florestais, educação ambiental e conscientização da comunidade.
Brigada Guará
Criada oficialmente em 2014, com origem em esforços voluntários desde um grande incêndio em 2011, conta com cerca de 20 brigadistas ativos. Atua no combate nascentes, trilhas e áreas de cerrado e mata atlântica.
Brigada 1
Presente em diversas ações, a “Brigada 1” também tem sua força reconhecida em audiências públicas na Assembleia Legislativa de MG, onde suas equipes de voluntários foram homenageadas por seu esforço no combate ao fogo, lado a lado com bombeiros e brigadistas regionais .
Em Defesa da Serra - Trabalho Voluntário
Essas brigadas representam a linha de frente da proteção contra incêndios na serra. Elas operam em condições muitas vezes adversas, com equipamentos limitados, enfrentando o calor extremo e os desafios do relevo.
O trabalho é 100% voluntário, movido pela paixão pela natureza e pela solidariedade com a comunidade local.
Suas ações incluem:
•Prevenção e educação ambiental junto a moradores e visitantes;
•Monitoramento de focos de calor com rescaldo imediato;
•Combate direto ao fogo, muitas vezes em terrenos íngremes e de difícil acesso;
•Parcerias com órgãos como CBMMG, IEF, AMDA, Copasa, fortalecendo a proteção em todo o parque.
Incêndios na Serra do Rola-Moça (últimos 37 anos)
Com base em registros de órgãos oficiais e imprensa local, temos um panorama dos maiores incêndios que marcaram o parque desde 1988 (período em que moro em Casa Branca):
Outubro de 2015
Um incêndio em 13 de outubro devastou cerca de 25% da área do parque (~1.009 ha), atingindo zonas críticas de captação de água (Pongelupe, Solar do Barreiro)
Agosto / Setembro de 2017
19 de agosto de 2017: dois focos criminosos, um deles no Mirante Casa Branca, mobilizaram 60 pessoas e 2.000 L de água no combate.
3-4 de setembro de 2017
Um novo incêndio destruiu grande parte da área que já estava em recuperação após o da semana anterior; brigadas locais e voluntárias lutaram contra as chamas.
Agosto de 2022
Durante o período seco (junho–agosto), o parque enfrentou cerca de 30 focos de incêndio - o último registrado foi em 17-18 de agosto, afetando aproximadamente 10 hectares próximos ao viaduto da Mutuca.
Panorama geral e prevenção recente
Estima-se que, desde 2011, o parque vem perdendo cerca de 40% de sua cobertura florestal devido a incêndios florestais recorrentes.
Atualmente há monitoramento por câmeras, brigadistas fixos, e projetos de manejo de fogo para reduzir em até 50% a área queimada - com redução já alcançada de até 65%.
As câmeras coibiram os incêndios criminosos. Minha teoria conspiratória é: “Se não tem flora nem fauna, então, porque é parque?
* Tunico Caldeira é publicitário, gestor cultural, professor e artista plástico
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