O mundo surreal
Na coluna "Fala, Carmelita", acompanhe crônicas de Carmelita Chaves
“As pessoas trabalham melhor quando sabem qual é o objetivo e por quê. É importante que as pessoas saibam para onde estão indo.” Elon Musk
Há muito deixei de ver programas e filmes que antes me entretinham e me relaxavam. Tornaram-se, aos poucos, mensageiros de hábitos e costumes contrários àqueles que o Criador inspirou a seus mensageiros, ao longo de toda a existência humana na Terra - para nos ensinar o caminho da luz.
Parece-me, porém, que todos nascemos nas sombras, talvez justamente para termos a oportunidade de usar o livre-arbítrio.
Hoje vivemos tempos em que as palavras já não tocam o chão.
A moral tornou-se relativa, e o arbítrio, excentricamente livre -
flutua, sem peso, sem consequência.
No canal que passei a assistir - de documentários, paisagens magníficas e verdades ditas como realmente “verdadeiras” - é curioso notar como todos falam em “conexão”:
uns com os astros, outros com povos e culturas antigas, com descobertas fantásticas, profecias, apocalipses e costumes…
mas quase ninguém se conecta com o real.
Entre vídeos de vozes mansas e fórmulas místicas, cresce uma nova retórica:
a que veste o delírio com o manto da razão — mas sem ação.
Matemática cósmica, frequências da Terra, códigos que prometem diálogo com o invisível.
E tudo soa tão convincente, tão harmônico,
que até a dúvida parece fora de lugar.
Mas este cenário é o mesmo da política.
As palavras brilham, inflamadas,
cheias de força, de gestos, de promessas —
mas vazias de ação.
Discursos que gritam mudança,
mas não movem uma pedra sequer.
A retórica virou espetáculo.
E a ação, figurante.
O verbo substituiu o gesto,
e a energia sem direção tornou-se sinônimo do nada.
Em busca de likes, matérias antigas mudam constantemente de título e de tom, em chamadas sensacionalistas -
é quando caímos num fio, fino e teimoso, que ainda nos liga ao real
e constatamos o engodo.
Um silêncio paira entre o último discurso e o primeiro gesto político.
É ali que mora o irreal.
Ninguém sabe o significado daquilo -
ninguém sabe se é bom ou ruim.
E talvez seja ali também que se esconde o que ainda é o mais vedado de toda a verdade.
Então, o que é o real?
O toque. O olhar. O pão.
E não o que se escuta.
Enquanto isso, o nosso mundinho continua o mesmo:
trabalhar, ganhar e gastar.
E as conversas gostosas?
As trocas de ideias, de conhecimento, de abraços amorosos?
Será que ainda vão resistir
num mundo propositalmente dividido pelas armadilhas das ideologias?
Talvez sim -
pelas presenças que ainda permanecem por amor.
Espero que não sejam suspensas com o tempo,
pela ausência de gravidade.
Porque se continuarmos assim,
viveremos no ar -
e cedo ou tarde,
esqueceremos o que é chão.
Carmelita Chaves é publicitária, escritora e restaurateur
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