Quando o céu repassa a Terra
Na coluna "Fala, Carmelita", acompanhe crônicas de Carmelita Chaves
“Acho que todo mundo sabe, intuitivamente, que existe uma loucura na maneira de ser dos homens.” (Rubem Alves)
Penso mesmo que o céu tem memória. Como se, de tempos em tempos, ele nos olhasse de volta - e nos perguntasse se ainda lembramos quem somos.
Li sobre o 3I/ATLAS, esse viajante interestelar que cruza agora o nosso sistema solar, vindo de sabe-se lá onde, talvez carregando ecos de estrelas que já morreram.
Dizem que ele tem bilhões de anos. Talvez tenha passado por aqui antes, quando o planeta ainda se livrava de suas camadas de gelo e os homens não sabiam nomear o medo.
Naquela época, não havia telescópios nem teorias - só olhos e espanto. E, quem sabe, ao olhar o mesmo céu, algum humano antigo também tenha sentido que o mundo estava mudando, que algo maior se movia silenciosamente entre as constelações.
Hoje, tudo acontece ao mesmo tempo: guerras, catástrofes, revelações, máquinas que pensam, almas que desabam.
É como se o planeta inteiro estivesse prestes a despertar de um sonho - ou mergulhar em um pesadelo.
Vivemos o ruído do excesso, a pressa do medo e o cansaço do sentido - e de retóricas vazias.
E talvez, antes de tentarmos entender o universo, seja hora de olharmos para dentro. Rever nossas ações, conceitos, intenções e consequências.
Refazer o mapa de nossas crenças, o valor que damos à vida, o respeito que oferecemos à Terra e ao outro. Talvez este seja o verdadeiro sinal dos céus: o chamado para uma revisão interior.
Às vezes, acho que enlouqueceríamos se tentássemos compreender tudo. Mas também é perigoso nos calarmos demais.
Entre a loucura e a alienação, talvez reste o caminho do silêncio lúcido - o olhar que aceita o mistério, mas não desiste de buscar sentido.
O 3I passa pelo céu e segue adiante. Nós ficamos - tentando, mais uma vez, compreender o que o cosmos quer nos dizer. E talvez, no fundo, ele só esteja repetindo:
“Vocês ainda estão aqui. Evoluíram em vários setores… mas agora, como anda a consciência humana?”
* Carmelita Chaves é publicitária, escritora e restaurateur
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