A amizade que sustenta o tempo. meu irmão de jornada

Na coluna Na Garupa com o Tunico, crônicas sobre estradas, histórias e destinos

Out 28, 2025 - 09:41
A amizade que sustenta o tempo. meu irmão de jornada

Hoje celebro não apenas o seu aniversário, Paulo Figueiredo, meu irmão Kung Fu (Mestre Moy Lei Do), mas a travessia que fizemos lado a lado - uma amizade que atravessa décadas, firme como rocha, leve como o riso das nossas conversas e profunda como o silêncio compartilhado entre os que se compreendem sem precisar dizer.

Somos, por curiosa coincidência, quase gêmeos do tempo - separados apenas por dois dias, mas unidos por uma vida inteira de memórias.

Fomos somando nossas idades e transformando o tempo em celebração: aos 50, aos 60, aos 100, aos 120... e agora, aos 128 anos somados, seguimos brindando o que realmente importa - a vida partilhada, o respeito, a confiança e o afeto sincero.

Num mundo apressado, onde a generosidade e o zelo parecem fora de moda, seguimos, de certo modo, como testemunhas de um outro tempo - aquele em que a palavra tinha peso, o olhar tinha verdade e a amizade tinha raiz.

E é nesses momentos que a vida nos revela o valor dos encontros. Em 2016, quando o destino me pôs à prova, com o acidente que quase me tirou o passo, foi você quem estava lá, quando a porta da ambulância se abriu.

Eu voltava do hospital João XXIII, ainda atordoado, sem imaginar o tamanho do desafio que me esperava.
Você, Paulo Figueiredo, já havia ido à minha casa antes de mim.

Colocou barras de segurança no banheiro, preparou o espaço onde eu passaria 12 meses de cama e dois anos de cadeira de rodas. Fez o que poucos fariam - antecipou a dor, previu a necessidade, e agiu com o coração.

Aquele gesto, silencioso e imenso, ficou impresso na minha alma. Ali eu compreendi o verdadeiro sentido do zelo, do apreço e da amizade - não como palavras ditas, mas como ações que tocam o divino.

Sim, há algo de celestial nesses encontros raros. São amizades que não se explicam: apenas se reconhecem, como se Deus as tivesse assinado no início da nossa jornada, com bênçãos de amor e propósito, nos fazendo reencontrar em novas e eternas vidas, em novos desafios.

Chegarmos juntos aos 64 é mais do que um número - é um testemunho. É saber que amadurecer não é envelhecer, mas fortalecer laços que resistem ao tempo e à pressa do mundo.

Que venham muitos outros aniversários somados, meu amigo. E que a estrada, longa e generosa, siga nos permitindo celebrar o que há de mais humano e sagrado: a amizade que sustenta o tempo, lembrando sempre que nosso espírito é imortal.

* Tunico Caldeira é publicitário, gestor cultural, professor e artista plástico  

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