Gilberto Todt, um artista motociclista
Na coluna Na Garupa com o Tunico, crônicas sobre estradas, histórias e destinos
Um gaúcho de Cruz Alta, Rio Grande do Sul, que a vida levou para 18 cidades diferentes. De cada uma delas, Gilberto Todt guardou um pedaço - como quem coleciona cores para depois transformar em música, estrada e arte.
Amigo, irmão de jornadas, carona nas histórias que contamos e nas que ainda virão. Muitas vezes foi ele quem me levou na garupa: em seus vídeos, nas canções, nos desafios da vida e nos encontros improváveis que só a estrada proporciona.
A música e o motociclismo chegaram quase juntos, lá nos anos 80. Primeiro veio a Banda Abadia, autoral, com estreia no Teatro Universitário de Curitiba.
Depois, a primeira moto - uma RDZ 135. Pequena, mas capaz de abrir o mundo. Incorporou-se ao corpo e ao espírito, levando-o à faculdade, ao trabalho e, principalmente, para o litoral paranaense.
Imagino - e confesso certa inveja - das vezes em que percorreu a charmosa Estrada da Graciosa, muito antes de o moto turismo ganhar nome e conceito.
Mais tarde, Minas Gerais entrou em seu caminho. Ao conhecer a Serra do Rola-Moça, encontrou nela uma familiaridade com as paisagens da infância.
Vieram as viagens mais longas: Curitiba a Avaré, depois Curitiba a Porto Alegre, onde Brigite - sua moto - foi roubada. O primeiro choque da estrada.
As décadas seguintes o afastaram das motos. Casamento, trabalho em escolas de inglês, a publicidade, o marketing.
Mas foi em Belo Horizonte que a arte falou mais alto. Figurinos, cenários, trilhas sonoras para teatro, parcerias com Tarcísio Ribeiro Jr., Maurício Tizumba e tantos outros.
Macacos se tornou casa definitiva em 1996, e dali ele mergulhou de vez na criação artística: formou-se em Artes Plásticas pela Escola Guignard, produziu eventos, ajudou a construir a identidade cultural do distrito.
Vieram projetos marcantes: o Mercado Mundo Mico, a banda Oncotô, o duo The Meacles, apresentações no Abóbora e nos palcos de Minas.
Mas em 2019 o coração voltou a acelerar com o ronco dos motores. Comprou uma Kazynsky Mirage 250 - modesta, mas suficiente para devolver-lhe a liberdade.
O sonho era maior: queria estrada. A Serra do Rio do Rastro foi o destino. No caminho, descobriu a Rota Capitão Senra e percebeu que até comerciantes locais desconheciam sua importância.
Decidiu então transformar sua viagem em divulgação, criando o conceito de MOTO SOLO - a marca de quem viaja só, mas não solitário, porque deixa rastros de amizade e inspiração por onde passa.
De volta, conheceu Anderson Rocha e o Gê.- este encontro fortaleceu ainda mais a nossa amizade e parceria, mas o mais importante, fortaleceu ainda mais a Rota Capitão Senra.
Paralelamente, nasceu o duo Folk News, que até hoje ecoa clássicos do século XX em eventos de motociclismo.
Em 2023, subiu de cilindrada: Capitu, a Yamaha Drag Star 650, se tornou companheira da estrada. Diadorim - sua antiga moto - continua guardada, viva na memória e na garagem, sem coragem de vende-la, paixão.
Com Capitu, prepara a segunda edição do MOTO SOLO, rumo ao Caparaó, apoiado por comerciantes e amigos que acreditam no seu projeto.Gilberto Todt é assim: artista, músico, professor de Xadrez, motociclista.
Mas, no fundo, tudo isso é uma coisa só - a vontade de criar, experimentar e transformar cada quilômetro em história. Como ele mesmo diz “Para quem vem depois”.
E eu sigo com ele, na garupa da vida, porque sei que sua estrada nunca será apenas de asfalto: é feita de cores e poesia.
* Tunico Caldeira é publicitário, gestor cultural, professor e artista plástico
Qual é a sua reação?


