Neste Dia das Mães: Dona Ângela, minha mãe
Na coluna Na Garupa com o Tunico, crônicas sobre estradas, histórias e destinos mineiros. Uma visão pela alma e pelo coração do Tunico, sobre as experiências que se pode sentir sobre duas ou quatro rodas
Nada mais justo do que homenagear a minha mãe nesta semana tão especial. Principalmente por ela ter nos deixado tão precocemente, aos 56 anos. Ela estaria completando agora no dia 21 de maio 88 anos.
Ouropretana, a primeira neta de Salvatore Trópia, ela puxou uma enorme fila de netos. uma família tradicional que fez e faz história na cidade até hoje, deixando um legado que ajudou a construir os pilares da cultura e da gastronomia locais.
Os dois cinemas de Ouro Preto e o de Mariana, fundados pelo nosso patriarca que coincidentemente teve sua história contada no filme Cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore ganhador do Oscar de 1988.
O mesmo nome do protagonista Salvatore, com o mesmo apelido Totó, que arranca lágrimas de todos da família e que recorrentemente assistimos a este belíssimo filme, com uma trilha sonora de arrepiar.
Falando nisso, minha avó Rosa Trópia e suas irmãs desde muito jovens tocavam no cinema do pai, embalando os sonhos e a imaginação, dando vida e mais sentido às imagens sem som.
Minha mãe que possuía a panturrilha (batata da perna) mais bem definida já vista, não por bicicleta, mas forjada nas ladeiras de Ouro Preto, nas idas e vindas do cotidiano da sua infância mostravam que não devia ser nada fácil.
Meu avô Orlando Caldeira, engenheiro de minas, assim como quase todos os meus tios, trabalhou em Saramenha, na Alcoa, depois mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, Belo Horizonte e finalmente São Paulo.
No período de Belo Horizonte, entre o colégio Sacre Coeur de Marie e a Praça Marília de Dirceu, onde morava, ela foi vista por um rapaz que, pelo que se conta, apaixonou-se por ela assim que a viu: meu pai.
Não foi um namoro muito fácil em função das dificuldades da época que se agravaram quando meu avô se mudou para São Paulo com a família, fazendo com que namoro e noivado fossem feitos por carta e enfrentando o famoso Flecha Azul - ônibus da viação Cometa numa sofrida 381 em 10 horas de muitos riscos na estrada.
Minha mãe, que já gostava de escrever cartas, hábito que manteve até seus últimos dias no planeta, se ocupava em se manter presente na vida das pessoas que amava. Ela teria adorado conhecer a internet e as redes sociais.
Em 1957 se casaram, eles tiveram muita sorte de meu irmão ter vindo primeiro, pois ele nasceu de 10 meses, e eu de apenas 6. Meu avô Caldeirinha brincava comigo, se fosse o contrário eu não teria conhecido o meu pai.
Na minha vida eu pude conviver com um lar harmonioso, onde prevaleciam valores que moldaram minha conduta. Minha mãe era uma pessoa doce, mas extremamente enérgica e rigorosa.
Eu sou fã de quadrinhos desde sempre e ficava imaginando se o Stan Lee se baseou na minha mãe para criar o Wolverine.
Ela tinha unhas de adamantium, com alto poder de persuasão, me faziam estudar, tomar banho e escovar os dentes imediatamente.
Possuo pequenas cicatrizes quase imperceptíveis, mas que estão lá carinhosamente mostrando e me lembrando do zelo que ela tinha e da preocupação em manter seus dois filhos na linha.
Vivíamos muito bem, dentro das nossas possibilidades, sem exageros e com algumas restrições, mas era a realidade e minha mãe sempre conduziu isso com muita paciência e amor.
Ela e meu pai conseguiram durante a vida a dois, agregar amigos ao casal, nossa casa sempre estava cheia, sempre visitando parentes, amigos, programando encontros.
Meus pais foram pioneiros em Belo Horizonte do Encontro de Casais com Cristo, na igreja de Santana na Serra, com o Padre Mário.
Na década de 90, eu e Carmelita fazíamos trilha e eu guardava a moto na casa dos meus pais. Nunca vamos esquecer: ao escutar a moto chegando, Dona Ângela abria o portão da garagem e nos recebia com uma lavadora de alta pressão Karcher e nos dava um super banho para tirar o minério de ferro.
“Fica aí, nem pensa em entrar e sujar minha casa. Na rua, na rua!”
Teve um dia que ela nem esperou eu descer da moto. Quase fomos parar no chão. Ela se divertia fazendo isso.
Por um período de sua vida, ela morou com meu pai em São Paulo. Por um lado, foi ótimo: ela pôde ficar mais próxima dos seus pais. E para mim foi ótimo, pois eu não precisei sair de casa – meus pais saíram, rsss.
Neste período, minha mãe pôde trabalhar como voluntária em uma unidade da FEBEM, responsável por acolher recém-nascidos abandonados em lixões, caçambas e outras atrocidades.
Católica fervorosa e recém-praticante de Yoga, uniu vários conhecimentos: sais aromáticos, cromoterapia e outros dons esotéricos que já possuía, e passou a fazer uma limpeza nos bebês, não apenas física, mas espiritual. Ela fazia um trabalho invisível de purificação e bênção.
Foram muitos anos e muitas crianças que ela pôde, com toda dedicação, limpar, retirar toda a energia negativa com que foram deixadas, dando uma carga positiva de amor e esperança para uma nova vida, um novo começo. Isso mostra um pouco do ser especial que ela era.
Deus a levou precocemente para outra missão, em uma outra morada que precisava do seu amor. Dona Ângela faz muita falta, era uma pessoa muito boa. Me orgulho em ter pego carona com ela na vinda para este planeta.
* Tunico Caldeira é publicitário, gestor cultural, professor e artista plástico
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