Família Dinelli
Na coluna Na Garupa com o Tunico, crônicas sobre estradas, histórias e destinos mineiros. Uma visão pela alma e pelo coração do Tunico, sobre as experiências que se pode sentir sobre duas ou quatro rodas
Na Garupa com o Tunico desta semana, eu vou levar uma família inteira: a família Dinelli.
Os dois irmãos, Ricardo (o Tiné) e Ítalo (o Tuzinho), são amigos mais que especiais, companheiros de estrada - especialmente na volta pra casa depois da maratona do Bikefest de Tiradentes.
Há muitos anos, voltamos juntos, fazendo o retorno para BH/Casa Branca, sem pressa, numa toada de contemplação da estrada. Parando sem stress no Rocambole, em Lagoa Dourada, aproveitando para abastecer as motos, lanchar no Charme Country e, claro, onde mais der vontade.
Chegamos numa idade em que não queremos velocidade; queremos curtir o percurso. E são poucos os que nos acompanham nesse ritmo desacelerado, não frenético.
O Tuzinho, que tem como hobby fazer dioramas, já decorou todas as sedes por onde o Abóbora passou, com suas peças maravilhosas. E o Tiné me presenteou com uma joia de família: sua DT 180.
Mas não uma DT 180 qualquer - uma campeã, que participou de competições de Cross Country, pilotada pelas mãos hábeis de seu filho, o motociclista Luiz Fernando Dinelli, conhecido como Luluca. A moto subiu quatro vezes ao pódio:
19 de fevereiro de 2000, prova do Jockey - quarto lugar;
11 de março de 2000, em Sabará - CAMPEÃO;
10 de junho de 2000, prova Engenho Velho - quarto lugar;
28 de outubro de 2000, prova Tripuí - quarto lugar.
O mais engraçado nessa época era ver o Tiné, nervoso, gritando nas competições:
“Vai, acelera, se atira, pula…!”
Enquanto, do outro lado, sua esposa, Maria de Fátima, mãe do Luluca, gritava aflita: “Cuidaaaado, meu fiiiiilho… mais devagaaaaar… ai, meu Deus… ele vai cair…!”
Era bonito demais ver todos felizes, se abraçando e comemorando juntos cada vitória, cada treino, cada desafio.
Os Dinelli sempre gostaram muito de motos. O Tiné e seus dois filhos fizeram juntos a Rota 66, de moto, nos EUA - com Harleys alugadas -, enquanto o Tuzinho foi de Corvette vermelho, sem perder o charme. É claro que, durante o percurso, trocaram de posição, para que cada Dinelli pudesse ter o máximo de emoção.
Por toda essa vivência e esse amor à DT 180, eu nem acreditei quando, numa quinta-feira como outra qualquer, no tradicional encontro no Ali Ba Bar, o Tiné me perguntou:
- “Tuniquinho, você quer a DT 180 pra colocar em exposição lá no Abóbora?”
Aceitei na hora! Era uma forma de valorizar esse período histórico de todos nós, que começamos nossa trajetória nas trilhas, no pó e no barro desta Minas Gerais.
Tive o cuidado de restaurar todas as peças, trocar manetes, o tanque de plástico, os pneus… Pedi também para retirar todos os fluidos e conduítes, pois a moto seria pendurada no restaurante, evitando que pudesse pingar óleo em quem passasse por baixo.
Ficou sensacional! E o que o Tiné queria se realizou: vários motociclistas se emocionaram ao ver aquela beleza, novinha e saudosa, a recebê-los. Muitos foram os depoimentos que ouvimos ao longo dos sete anos em que ela morou ali.
O restaurante mudou duas vezes. Após o meu acidente, fomos para a Pousada Vista da Serra, e a DT ganhou um lugar de destaque - numa pedra, simulando um movimento cênico. Chumbada ao chão, ficou lá por dois anos e meio, até nossa mudança para a sede atual.
No final de 2018, fomos para a sede atual, e novamente a DT ficou em um lugar de destaque - também chumbada ao chão, mas desta vez no plano, sem a pedra.
Durante a pandemia de Covid-19, no dia 4 de dezembro de 2019, recebi uma ligação do Tenente Marcione, responsável na época pela área rural de Casa Branca.
Ele me perguntou se eu havia mandado a DT para lavar ou fazer alguma lubrificação. Minha coluna gelou na hora.
Informei que não, e ele solicitou minha presença no restaurante, pois a moto não estava mais lá. Pedi ao meu cunhado, Caio, que comparecesse e formalizasse o Boletim de Ocorrência, já que ele morava mais perto. Me desloquei imediatamente.
O Cabo Wedimar e o Soldado Marcus Vinicius, da Polícia Militar, registraram a ocorrência com meu cunhado. Cheguei quando eles estavam terminando o procedimento. Muito triste. Uma dor enorme, tanto minha quanto do Tiné, quando contei a ele.
Quem roubou a DT teve tempo. Naquele período, todos estavam em casa; ninguém saía.
No boletim ficou claro: “Motocicleta inoperante, utilizada para ornamentação do espaço comercial.”
Mas ela era muito mais do que isso… Era um vínculo com toda uma geração acima dos 55 anos. Uma memória afetiva que não se mede em preço.
Além do sentimento de invasão, ficou o vazio pela perda e a tristeza que recaiu sobre os Dinelli.
Como nossa cultura é deturpada… Como nossos valores são desprezados… Um fato inconcebível em qualquer outra parte do planeta.
Vida que segue.
Na década de 80, o Tiné levava a moto numa carretinha. Hoje, Luluca pratica trial no mínimo três vezes por semana, subindo e descendo só em terrenos pedregosos - agora com uma moto 300cc, transportada numa Fiat Toro. Ele é educador físico, proprietário da Academia Pura Forma, no bairro de Lourdes.
Seu irmão, Ricardo, é engenheiro e mora no Canadá.
Tiné e Tuzinho continuam pilotando suas motos por aí, enquanto Maria de Fátima se encarrega de rezar pela segurança de todos - incluindo os netinhos.
Essa história nos mostra como amigos são importantes, como construímos histórias e afeto. Na alegria e na tristeza. O amor é a liga que nos envolve, que nos inspira e nos faz crescer.
O envelhecimento é apenas uma consequência natural da nossa finitude - que, graças ao Bom Deus, ainda demora a chegar.
* Tunico Caldeira é publicitário, gestor cultural, professor e artista plástico
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